terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

2º Médio - Roteiro de Estudo P1 de Literatura - Março de 2026

 

ROTEIRO DE ESTUDO

Prova Mensal de Literatura P1- 2º Médio

Realismo | Dom Casmurro | Eça de Queirós | Machado de Assis

Parte 1 – O que é Literatura?

Antes de mergulharmos no Realismo, é fundamental entender o que faz um texto ser literário.

1.1 Características do Texto Literário

A literatura é uma forma de arte que usa a linguagem como matéria-prima. Mas não é qualquer uso da linguagem: enquanto uma notícia quer informar de forma objetiva e direta, o texto literário usa a linguagem de maneira estética e conotativa — ou seja, as palavras ganham novos significados, provocam emoções e abrem espaço para múltiplas interpretações.

Exemplo prático:

Texto informativo:

"O sol nasce às 6h12 em São Paulo nesta segunda-feira."

Texto literário:

"E o sol, indiferente, acordou mais uma vez sobre a cidade barulhenta, sem saber que naquele dia uma criança aprendia a ler pela primeira vez."

 Parte 2 – O Realismo

2.1 O que é o Realismo?

O Realismo foi um movimento literário e cultural que surgiu na segunda metade do século XIX, principalmente a partir de 1850 na Europa, chegando ao Brasil por volta de 1881. Ele surgiu como uma reação ao Romantismo — a escola anterior — que valorizava a emoção, a imaginação, o idealismo e a fuga da realidade.

O Realismo fez o oposto: quis olhar para a realidade como ela é, com todos os seus problemas, hipocrisias e contradições.

2.2 Romantismo x Realismo: a grande virada

Romantismo

Realismo

Idealização do amor e dos personagens

Análise psicológica e crítica social

Emoção, sentimentos exaltados

Razão, objetividade, observação

Fuga da realidade

Retrato fiel e crítico da realidade

Herói perfeito, sem defeitos

Personagem complexo, cheio de contradições

Linguagem rebuscada e emocional

Linguagem clara, irônica, analítica

Amor idealizado e impossível

Casamento como contrato social

 2.3 A Conferência do Casino (1871) – Eça de Queirós

Em 1871, em Lisboa, ocorreu uma série de palestras chamadas Conferências do Casino. Eça de Queirós foi um dos participantes e definiu o Realismo como um movimento dedicado à análise racional e à crítica dos costumes e das instituições sociais. Para Eça, a literatura devia ser uma ferramenta de transformação social — denunciar hipocrisias, expor os problemas da burguesia e questionar as estruturas da sociedade.

A fórmula do Realismo segundo Eça de Queirós:

Arte = Análise racional da sociedade + Crítica dos costumes e instituições + Verossimilhança (parecer verdadeiro)

 2.4 Verossimilhança: o que é isso?

Verossimilhança vem do latim "verus similis" = que parece verdadeiro. Uma obra realista não precisa ser literalmente verdadeira (como um documentário), mas precisa parecer verdadeira — ser coerente com a realidade que conhecemos, respeitar a lógica dos comportamentos humanos e evitar o sobrenatural ou o impossível.

Exemplo:

Um romance realista pode inventar personagens e situações, mas eles devem agir como pessoas reais agem: com motivações compreensíveis, limitações humanas, contradições internas. Se um personagem mente para proteger sua posição social, isso é verossímil. Se de repente voa pelos ares sem explicação, isso quebra a verossimilhança realista.

 2.5 A Literatura como Crítica Social

Um dos pilares do Realismo é usar a literatura como instrumento de denúncia. Os autores realistas não escreviam só para entreter — queriam expor problemas reais da sociedade. Os principais alvos eram:

       A hipocrisia da burguesia (a classe média alta que fingia ser virtuosa, mas escondia vícios).

       As desigualdades sociais e econômicas.

       A instituição do casamento como arranjo social, não como amor genuíno.

       O comportamento dos agregados e dependentes nas casas ricas.

       A Igreja e o poder religioso sobre as famílias.

       A escravidão e suas consequências no Brasil.

 2.6 Eça de Queirós – O Realismo Português

Eça de Queirós (1845–1900) é considerado o maior representante da prosa realista em Portugal. Suas obras mais famosas incluem O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e A Relíquia. Eça renovou completamente a linguagem do romance português, abandonando o estilo rebuscado e emocional do Romantismo para adotar uma prosa mais irônica, precisa e analítica.

Parte 3 – Dom Casmurro e Machado de Assis

3.1 Machado de Assis – O Realismo Brasileiro

Joaquim Maria Machado de Assis (1839–1908) é o maior nome da literatura brasileira e o principal representante do Realismo no Brasil. Nascido no Rio de Janeiro, filho de um pintor mulato e uma lavadeira portuguesa, Machado superou todas as adversidades sociais para se tornar um escritor brilhantíssimo, fundador da Academia Brasileira de Letras.

Suas obras se dividem em duas fases. A primeira fase (Romântica) inclui livros como Ressurreição e A Mão e a Luva. A segunda fase (Realista), que começa com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), é a mais importante, com Dom Casmurro (1899) e Quincas Borba.

3.2 Dom Casmurro – Resumo da Obra

Dom Casmurro é narrado em primeira pessoa por Bento Santiago, um advogado rico que ficou conhecido pelo apelido 'Dom Casmurro' (dado por um jovem poeta que ele não quis ouvir declamar versos numa noite de trem — 'dom' era irônico, e 'casmurro' significa fechado, taciturno).

Na velhice, Bento escreve suas memórias tentando "atar as duas pontas da vida" — ou seja, recuperar o passado e encontrar sentido para sua vida. Ele conta como se apaixonou por Capitu, sua vizinha desde a infância, como precisou ir para o seminário (pois a mãe tinha feito uma promessa a Deus), como se casou com Capitu, e como chegou à convicção de que ela o traiu com seu melhor amigo, Escobar.

3.3 A Evocação da Memória – Narrador em Primeira Pessoa

Dom Casmurro é um romance memorialista: o narrador Bento conta fatos do passado a partir de sua perspectiva atual, já velho e ressentido. Isso é fundamental para entender a obra!

Por que o narrador não é confiável?

Bento Santiago tem ciúme e mágoa ao narrar. Ele seleciona as memórias que quer contar, interpreta os gestos de Capitu à luz de sua desconfiança, e tenta convencer o leitor de que foi traído. Mas será que foi mesmo? O leitor nunca tem provas concretas — só a versão de Bento.

Um narrador não confiável é aquele cuja versão dos fatos pode ser questionada porque é influenciada por seus próprios sentimentos, traumas ou interesses.

 O célebre exemplo dos 'olhos de ressaca' de Capitu:

Bento descreve os olhos de Capitu como 'olhos de ressaca' — profundos, misteriosos, que puxavam para dentro. Essa metáfora é ambígua: pode representar a beleza hipnotizante de Capitu, mas também a ideia de que ela era perigosa, que 'arrastava' os homens. Machado usa a linguagem do próprio narrador para mostrar sua obsessão e desconfiança.

3.4 A Digressão – Técnica Narrativa de Machado

Machado de Assis era famoso por interromper o fluxo da narrativa para conversar diretamente com o leitor ou fazer comentários filosóficos e irônicos sobre o que estava escrevendo. Essa técnica se chama digressão.

As digressões também servem para o narrador tentar persuadir o leitor de sua versão da história — o que reforça a ideia de que Bento não é confiável.

3.5 Os Personagens e a Crítica Social

José Dias – O Agregado

José Dias é um dos personagens mais interessantes de Dom Casmurro. Ele é um 'agregado' — alguém que não é da família, mas vive na casa de Dona Glória, come à mesa dos donos e depende deles para sobreviver. Em troca, oferece adulação, bajulação e pequenos serviços.

 

Característica

Romantismo (Antigo)

Realismo (Foco da Prova)

Visão de Mundo

Idealização e Sonho

Análise Crítica e Racional

Personagens

Heróis Perfeitos

Seres com falhas e vícios

Linguagem

Rebuscada e Sentimental

Direta, objetiva e irônica

Temática

Escapismo e Passado

Problemas Sociais e Presente

 Bom estudo e Boa prova!

 

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