ROTEIRO DE ESTUDO
Prova Mensal de Literatura P1- 2º Médio
Realismo | Dom Casmurro | Eça de Queirós | Machado de Assis
Parte 1 – O que é
Literatura?
Antes de mergulharmos
no Realismo, é fundamental entender o que faz um texto ser literário.
1.1 Características do
Texto Literário
A literatura é uma
forma de arte que usa a linguagem como matéria-prima. Mas não é qualquer uso da
linguagem: enquanto uma notícia quer informar de forma objetiva e direta, o
texto literário usa a linguagem de maneira estética e conotativa — ou seja, as palavras
ganham novos significados, provocam emoções e abrem espaço para múltiplas
interpretações.
Exemplo prático:
|
Texto informativo: "O sol nasce às 6h12 em São Paulo nesta
segunda-feira." Texto literário: "E o sol, indiferente, acordou mais uma vez
sobre a cidade barulhenta, sem saber que naquele dia uma criança aprendia a
ler pela primeira vez." |
2.1 O que é o Realismo?
O Realismo foi um
movimento literário e cultural que surgiu na segunda metade do século XIX,
principalmente a partir de 1850 na Europa, chegando ao Brasil por volta de
1881. Ele surgiu como uma reação ao Romantismo — a escola anterior — que
valorizava a emoção, a imaginação, o idealismo e a fuga da realidade.
O Realismo fez o
oposto: quis olhar para a realidade como ela é, com todos os seus problemas,
hipocrisias e contradições.
2.2 Romantismo x
Realismo: a grande virada
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Romantismo |
Realismo |
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Idealização do amor e dos personagens |
Análise psicológica e crítica social |
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Emoção, sentimentos exaltados |
Razão, objetividade, observação |
|
Fuga da realidade |
Retrato fiel e crítico da realidade |
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Herói perfeito, sem defeitos |
Personagem complexo, cheio de contradições |
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Linguagem rebuscada e emocional |
Linguagem clara, irônica, analítica |
|
Amor idealizado e impossível |
Casamento como contrato social |
Em 1871, em Lisboa,
ocorreu uma série de palestras chamadas Conferências do Casino. Eça de Queirós
foi um dos participantes e definiu o Realismo como um movimento dedicado à
análise racional e à crítica dos costumes e das instituições sociais. Para Eça,
a literatura devia ser uma ferramenta de transformação social — denunciar
hipocrisias, expor os problemas da burguesia e questionar as estruturas da
sociedade.
|
A fórmula do Realismo segundo Eça de Queirós: Arte = Análise racional da sociedade + Crítica dos
costumes e instituições + Verossimilhança (parecer verdadeiro) |
Verossimilhança vem do
latim "verus similis" = que parece verdadeiro. Uma obra realista não
precisa ser literalmente verdadeira (como um documentário), mas precisa parecer
verdadeira — ser coerente com a realidade que conhecemos, respeitar a lógica
dos comportamentos humanos e evitar o sobrenatural ou o impossível.
Exemplo:
|
Um romance realista pode inventar personagens e
situações, mas eles devem agir como pessoas reais agem: com motivações
compreensíveis, limitações humanas, contradições internas. Se um personagem
mente para proteger sua posição social, isso é verossímil. Se de repente voa
pelos ares sem explicação, isso quebra a verossimilhança realista. |
Um dos pilares do
Realismo é usar a literatura como instrumento de denúncia. Os autores realistas
não escreviam só para entreter — queriam expor problemas reais da sociedade. Os
principais alvos eram:
●
A
hipocrisia da burguesia (a classe média alta que fingia ser virtuosa, mas
escondia vícios).
●
As
desigualdades sociais e econômicas.
●
A
instituição do casamento como arranjo social, não como amor genuíno.
●
O
comportamento dos agregados e dependentes nas casas ricas.
●
A
Igreja e o poder religioso sobre as famílias.
●
A
escravidão e suas consequências no Brasil.
Eça de Queirós
(1845–1900) é considerado o maior representante da prosa realista em Portugal.
Suas obras mais famosas incluem O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e
A Relíquia. Eça renovou completamente a linguagem do romance português,
abandonando o estilo rebuscado e emocional do Romantismo para adotar uma prosa
mais irônica, precisa e analítica.
Parte 3 – Dom Casmurro
e Machado de Assis
3.1 Machado de Assis –
O Realismo Brasileiro
Joaquim Maria Machado
de Assis (1839–1908) é o maior nome da literatura brasileira e o principal
representante do Realismo no Brasil. Nascido no Rio de Janeiro, filho de um
pintor mulato e uma lavadeira portuguesa, Machado superou todas as adversidades
sociais para se tornar um escritor brilhantíssimo, fundador da Academia
Brasileira de Letras.
Suas obras se dividem
em duas fases. A primeira fase (Romântica) inclui livros como Ressurreição
e A Mão e a Luva. A segunda fase (Realista), que começa com Memórias
Póstumas de Brás Cubas (1881), é a mais importante, com Dom Casmurro
(1899) e Quincas Borba.
3.2 Dom Casmurro –
Resumo da Obra
Dom Casmurro é narrado em primeira
pessoa por Bento Santiago, um advogado rico que ficou conhecido pelo apelido
'Dom Casmurro' (dado por um jovem poeta que ele não quis ouvir declamar versos
numa noite de trem — 'dom' era irônico, e 'casmurro' significa fechado, taciturno).
Na velhice, Bento
escreve suas memórias tentando "atar as duas pontas da vida" — ou
seja, recuperar o passado e encontrar sentido para sua vida. Ele conta como se
apaixonou por Capitu, sua vizinha desde a infância, como precisou ir para o
seminário (pois a mãe tinha feito uma promessa a Deus), como se casou com
Capitu, e como chegou à convicção de que ela o traiu com seu melhor amigo,
Escobar.
3.3 A Evocação da
Memória – Narrador em Primeira Pessoa
Dom Casmurro é um
romance memorialista: o narrador Bento conta fatos do passado a partir de sua
perspectiva atual, já velho e ressentido. Isso é fundamental para entender a
obra!
|
Por que o narrador não é confiável? Bento Santiago tem ciúme e mágoa ao narrar. Ele
seleciona as memórias que quer contar, interpreta os gestos de Capitu à luz
de sua desconfiança, e tenta convencer o leitor de que foi traído. Mas será
que foi mesmo? O leitor nunca tem provas concretas — só a versão de Bento. Um narrador não confiável é aquele cuja versão dos
fatos pode ser questionada porque é influenciada por seus próprios
sentimentos, traumas ou interesses. |
Bento descreve os olhos
de Capitu como 'olhos de ressaca' — profundos, misteriosos, que puxavam para
dentro. Essa metáfora é ambígua: pode representar a beleza hipnotizante de
Capitu, mas também a ideia de que ela era perigosa, que 'arrastava' os homens.
Machado usa a linguagem do próprio narrador para mostrar sua obsessão e
desconfiança.
3.4 A Digressão –
Técnica Narrativa de Machado
Machado de Assis era
famoso por interromper o fluxo da narrativa para conversar diretamente com o
leitor ou fazer comentários filosóficos e irônicos sobre o que estava
escrevendo. Essa técnica se chama digressão.
As digressões também
servem para o narrador tentar persuadir o leitor de sua versão da história — o
que reforça a ideia de que Bento não é confiável.
3.5 Os Personagens e a
Crítica Social
José Dias – O Agregado
José Dias é um dos
personagens mais interessantes de Dom Casmurro. Ele é um 'agregado' — alguém
que não é da família, mas vive na casa de Dona Glória, come à mesa dos donos e
depende deles para sobreviver. Em troca, oferece adulação, bajulação e pequenos
serviços.
|
Característica |
Romantismo (Antigo) |
Realismo (Foco da
Prova) |
|
Visão de Mundo |
Idealização e Sonho |
Análise Crítica e
Racional |
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Personagens |
Heróis Perfeitos |
Seres com falhas e
vícios |
|
Linguagem |
Rebuscada e
Sentimental |
Direta, objetiva e
irônica |
|
Temática |
Escapismo e Passado |
Problemas Sociais e
Presente |
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