sábado, 24 de agosto de 2013

Os verdadeiros líderes não têm o aplauso do seu tempo, mas o têm da história


"Nas veias dos demagogos não corre o leite da ternura humana e, sim,
o vinagre da burrice ou o veneno da hipocrisia."
Roberto Campos (1917-2001)

Há governantes, líderes comunitários, empresários que vão além do seu tempo, deixando para trás uma maioria míope e reivindicadora. Têm postura de estadistas. São alvos da incompreensão, maledicência, isolamento e agressões. Num movimento pendular sobre suas cabeças, a espada de Dâmocles oscila entre o desagradável e o plausível, este, porém, muitas vezes inconseqüente.

Quando os bons dirigentes propõem mudanças, encontram uma resistência feroz por parte de muitos e o apoio tíbio de uns poucos. Confortam-se com o dever cumprido e com o julgamento da posteridade. Sim, a História

essa "juíza imparcial" - repara injustiças, mas tem o péssimo hábito de andar tão devagar que raramente alcança os grandes líderes em vida.

Há um descompasso entre o aplauso do seu tempo e o aplauso da História. Destarte, o populismo e a demagogia aliciam os líderes fracos como o canto da sereia. "Ainda não descobri a maneira infalível de governar. Mas aprendi a fórmula certa de fracassar: querer agradar a todos, ao mesmo tempo" - discursava apropriadamente John F. Kennedy (1917-1963), meses antes de ser abatido por tiros certeiros em Dallas.

Em 44 a.C., Caio Júlio César, o mais renomado imperador romano, foi atraiçoado por 23 punhaladas, vítima de uma conspiração. Suas palavras derradeiras demonstram antes de tudo um coração dilacerado pela ingratidão, especialmente de Brutus, filho único e adotivo: "Tu quoque, Brutus, fili mi!" (Até tu, Brutus, filho meu!).

"Você pode enganar todo o povo durante algum tempo e parte do povo durante todo o tempo, mas não pode enganar todo o povo todo o tempo" - se faz oportuno Abraham Lincoln, o mais venerado presidente dos EUA. Poucos desconhecem as suas vicissitudes: perdeu para deputado estadual, deputado federal, senador e foi assassinado por um fanático sulista em um teatro de Washington. Lincoln costumava repetir que, se fosse responder a todas as críticas que lhe eram dirigidas, não trataria de mais nada.

Winston Churchill, ao assumir o governo de coalizão em 1940, proclamou em seu histórico discurso: "I have nothing to offer but blood, toil, sweat and tears" (Eu não tenho nada a oferecer, a não ser sangue, trabalho, suor e lágrimas). Churchill, hodiernamente considerado o maior líder do século XX, conheceu o gosto amargo do ostracismo e da ingratidão dos ingleses: sofreu derrotas em quatro eleições.

E o que dizer do maior estadista indiano? Para Mahatma Gandhi, a pobreza é a pior forma de violência. Acusado de traidor por fanáticos hindus, em 1948 foi vitimado pelas balas de um deles. Logo ele, o apóstolo da não-violência, que costumava catequizar: "Olho por olho e o mundo acabará inteiramente cego".

Também se faz apropriada uma breve incursão no reino animal. Em algumas regiões inóspitas da Ásia, há manadas de cavalos selvagens que galopam céleres as pradarias e montanhas guiadas por um deles. É o cavalo líder e, quando este expõe os demais a uma situação de grande risco de vida, toda a tropa golpeia o líder com coices e patadas.

Um bando de macacos sempre escolhe um líder-olheiro, experiente e vivaz. Este é severamente punido se for negligente, não alertando a tempo a iminência de um perigo ou razia.

Se os animais são implacáveis com os erros e omissões de suas lideranças, nós, racionais, não deixamos por menos: defenestramos governantes. Collor e De la Rúa são os exemplos mais eloqüentes.

A presente crise argentina enseja reflexões, em face das eleições brasileiras em outubro de 2002. Nossos vizinhos têm um passado marcado pelo populismo, corrupção e impunidade. A nossa história também registra essa mazela, mas com menos ênfase.

Parafraseando Dante, os piores lugares do inferno deveriam ser reservados a esses governantes, pois geram miséria, inflação e comprometem gerações. O conspícuo filósofo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) já advertia que "a demagogia é a perversão da democracia".

Com presumíveis 14 candidatos à Presidência brasileira, não sei o que vem pela frente. Só espero que seja pela frente, completa o humorista. É indispensável que o próximo presidente mantenha a sanidade da moeda. A inflação, de acordo com a tese publicada por Joelmir Beting, é a principal motivadora de desigualdades. Um massacre social consentido que durou 30 anos: 1,1 quatrilhão por cento de inflação no período de 1964 a 1994! Não tendo conta em banco, os mais pobres não podiam usufruir os benefícios da correção monetária.

No governo FHC, as desigualdades sociais - que a bem da verdade é obra de décadas ou séculos - pouco foram mitigadas. E paradoxalmente nunca se investiu tanto. São 23 milhões de miseráveis (14,5% da população). Destes, 45% têm menos de 15 anos. Entretanto, avançamos muito no plano econômico, institucional, político, educacional. Melhoramos bastante quanto à auto-estima, expectativa de futuro, respeito aos contratos e punição dos corruptos. Desde 1995, o país foi atacado a bombordo e a estibordo por oito crises internacionais. E superou a mais feroz: a cambial de 1999.

O atual presidente não norteou seus atos na busca da popularidade fugaz. Embora pequeno, é emblemático um episódio. O diretor de uma estatal hesitava em tomar uma decisão desagradável, mas necessária. FHC foi incisivo: "Se você não o fizer, seu sucessor o fará".


Autor: Jacir J. Venturi
Diretor de escola, cidadão Honorário de Curitiba, autor de livros e professor da UFPR (durante 26 anos) e PUC-PR (durante 11 anos)